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23_04

NADA DO QUE É HUMANO ME É ESTRANHO

 


Somos capazes de, ao caminhar pelas ruas, desviar sem problema de fezes caninas ou felinas; contudo encontrar fezes humanas é motivo de asco ou distanciamento

Nada do que é humano me é estranho?

 

Certa vez, Laura, filha de Karl Marx, submeteu o grande pensador alemão a uma brincadeira divertida: responder a uma daquelas entrevistas relâmpagos (tornadas moda nas revistas e jornais do século seguinte ao deles) que, a pretexto de desnudar a intimidade de uma personalidade ou de um ídolo, perguntam qual a cor favorita, o prato favorito, o herói favorito etc. Depois de responder que a cor é a vermelha, o prato é o peixe e o herói é Spartacus, aparece entre os quesitos (registrados em um bem preservado manuscrito em idioma inglês) aquele que indaga pela máxima favorita, e Marx não titubeia: "Nihil humani a me alienum puto" (Nada do que é humano me é estranho), querendo afirmar sua convicção na idéia de fraternidade e humanidade coletiva.

Essa resposta oferecida pelo generoso filósofo expressa, com propriedade, os ideais aos quais se dedicou sinceramente por toda uma turbulenta existência. No entanto, nos nossos tempos ego-narcísicos, estamos perdendo as perspectivas de construção de uma convivência humana irmanada; cada vez mais ganham destaque outros ditados como: "Cada um por si e Deus por todos", "Cada macaco no seu galho" ou ainda "Quem pariu Mateus que o embale".

É interessante observar que a máxima por Marx admirada tem como fonte original a peça "O Atormentador de Si Mesmo", obra de Terêncio, comediógrafo latino do século 2 a.C., na qual se relata a história, ocorrida em Atenas, de um vizinho abelhudo que se intromete na vida dos outros sem perceber que coisas piores estão acontecendo dentro da própria casa dele. Como justificativa para os contínuos e inoportunos palpites que dava, esse vizinho fala: "Homo sum: humani nil a me alienum puto", isto é, sou homem e nada do que toca o homem julgo que me seja alheio.

O sentido da frase, nessa comédia, é totalmente diverso e muito menos honroso do que aquele propugnado por Marx, mas, infelizmente, muito mais próximo de nós, nos tempos atuais. A intenção marxiana é ressaltar o dever de compreender a noção de humanidade como a prática de uma espécie de "um por todos, todos por um". Já na acepção original e, agora, contemporânea, é a defesa do direito à futrica, à fofoca e ao voyeurismo desenfreado que assola um certo tipo de mídia, altamente rentável, especializada na exposição impressa ou televisiva do espetáculo proporcionado pelas delícias vividas pelos apaniguados e supostamente protegidos pelo destino e o inferno cotidiano dos fatalmente miseráveis e desgraçados.

Nada do que é humano nos é estranho? Nem sempre, dado que até a maioria dos odores humanos naturais nos desagrada. Não nos incomodamos em acariciar o dorso suado de um cavalo ou caminhar em meio aos cheiros que exalam de uma estrebaria ou curral (alguns proclamam apreciar esses aromas); porém a fragrância do suor humano incomoda, assim como muitos consideram insuportáveis os fluidos emanados de um banheiro (limpar banheiro é sinônimo de castigo!). Somos capazes de, ao caminhar pelas ruas, desviar sem problema de fezes caninas ou felinas; contudo encontrar fezes humanas é motivo de asco, repugnância ou distanciamento, tal como quando nos deparamos com mendigos, doentes crônicos, menores abandonados etc.

É por isso que, para não poucos, o sonho de paz e vida feliz é poder retirar-se para uma ilha paradisíaca, distante de tudo e afastada do maior número possível de humanos e humanas, isto é, isolar-se: ilha, condomínio fechado, alto da montanha, praia privativa, local inacessível; no máximo, horrorizar-se ou alegrar-se virtualmente com o que acontece com a humanidade, mas sem chegar muito perto.

Talvez, parodiando Nietzsche, seja preciso lamentar que, por enquanto, tudo isso seja humano, demasiado humano...

 


MARIO SERGIO CORTELLA é filósofo, professor da PUC-SP e autor de "A Escola e o Conhecimento: Fundamentos Epistemológicos e Políticos" (ed. Cortêz/IPF), entre outros

 



REENCARNAÇÃO NA GRÉCIA ANTIGA


Entre os gregos antigos, Sócrates, Pitágoras e Platão podem ser contados entre aqueles que fizeram da reencarnação uma parte integrante dos seus ensinamentos. No final de sua vida, Sócrates disse: “Estou confiante de que realmente existe algo como viver novamente e que os vivos brotam dos mortos”. (Fédon, tradutor Benjamin Jowett). Pitágoras afirmou que conseguia lembrar-se das suas vidas passadas, e Platão apresentou relatos detalhados da reencarnação nas suas principais obras. Resumidamente, ele sustentou que a alma pura cai do plano da realidade absoluta por causa do desejo sensual e então assume um corpo físico. Primeiro, as almas caídas nascem em formas humanas, a mais elevada das quais é a do filósofo, que luta por um conhecimento superior. Se o seu conhecimento se tornar perfeito, o filósofo poderá retornar a uma existência eterna. Mas se ele ficar irremediavelmente enredado em desejos materiais, ele descerá à espécie animal da vida. Platão acreditava que glutões e bêbados podem tornar-se burros em vidas futuras, pessoas violentas e injustas podem nascer como lobos e falcões, e seguidores cegos das convenções sociais podem tornar-se abelhas ou formigas. Depois de algum tempo, a alma atinge novamente a forma humana e outra chance de alcançar a libertação. (Fedro). Alguns estudiosos acreditam que Platão e outros primeiros filósofos gregos derivaram o seu conhecimento da reencarnação de religiões de mistério como o Orfismo, ou da Índia.



23_01

FILOSOFIA DA RELIGIÃO

 



A filosofia da religião é uma das divisões da filosofia. Tem por objetivo o estudo da dimensão espiritual do homem desde uma perspectiva filosófica (metafísica, antropológica e ética), indagando e pesquisando sobre a essência do fenômeno religioso. Em síntese, sua pergunta fundamental é: "O que é a religião?". Na filosofia da religião é onde ocorre o debate sobre a existência de Deus com a análise dos argumentos contra e a favor da existência de Deus, a filosofia da religião também se preocupa com a justificação e a epistemologia da crença e a relação da ciência com a religião.


Principais Filósofos da Religião

. Alvin Plantinga (Yale)

. William Alston

. Michael Tooley (Princeton)

. J. L.Mackie

. Alister McGrath (Oxford)

. Richard Swinburne (Oxford)

. Eleonore Stump (Harvard)

. John Hick

. Charles Taliaferro

. Antony Flew

. Dewi Zephaniah Phillips

. Basil Mitchell (Oxford)

. Elizabeth Anscombe (Oxford)

. Nicholas Wolterstorff (Harvard e Yale)

. Desidério Murcho

Epistemologia

De acordo com o prestigioso Cambridge Dictionary of Philosophy, a epistemologia religiosa é "um ramo da filosofia que investiga o status epistêmico de atitudes proposicionais sobre reivindicações religiosas" (Audi 2015: 925). Praticamente todas as metodologias existentes e atuais em epistemologia foram empregadas na avaliação de reivindicações religiosas. Alguns desses métodos foram mais racionalistas no sentido de envolverem o raciocínio a partir de verdades ostensivamente evidentes (por exemplo, um princípio de razão suficiente), enquanto outros foram mais experienciais (por exemplo, empirismo, fenomenologia, ênfase na paixão e subjetividade, o estresse na prática como encontrado no pragmatismo).

Swinburne foi (e é) o principal defensor da teologia natural teísta desde o início dos anos 1970. Swinburne aplicou suas consideráveis ​​habilidades analíticas ao defender a coerência e a força do teísmo, e a análise e defesa de ensinamentos cristãos específicos sobre a trindade, encarnação, ressurreição de Cristo, revelação e muito mais. Os projetos de Swinburne na tradição evidencialista na filosofia da religião estão na grande tradição da filosofia britânica da religião dos platonistas de Cambridge no século XVII, por Joseph Butler (1692-1752) e William Paley (1743–1805) aos filósofos britânicos do século XX, como como AE Taylor (1869–1945), FR Tennant (1866–1957), William Temple (1881–1944), HD Lewis (1910–1992) e AC Ewing (1899–1973). O argumento filosófico positivo do teísmo foi encontrado pelo trabalho de muitos filósofos poderosos, mais recentemente Ronald Hepburn (1927–2008), JL Mackie (1917–1981), Antony Flew (1923–2010), Richard Gale (1932–2015), William Rowe (1931–2015), Michael Martin (1932–2015), Graham Oppy (1960–), JL Schellenberg (1959–) e Paul Draper (1957–). (VerThe Routledge Companion to Theism [Taliaferro, Harrison, & Goetz 2012] para uma visão geral de tal trabalho.)

Houve pelo menos dois desenvolvimentos recentes interessantes na filosofia da religião no quadro do evidencialismo. Um foi apresentado por John Schellenberg, que argumenta que, se o Deus do cristianismo existe, a realidade de Deus seria muito mais evidente do que é. Indiscutivelmente, no entendimento cristão dos valores, um relacionamento evidente com Deus faz parte do bem humano mais elevado, e se Deus estivesse amando, Deus traria esse bem. Como há evidências de que Deus não se torna disponível para os que buscam sinceramente esse relacionamento, isso é evidência de que esse Deus não existe. De acordo com essa linha de raciocínio, a ausência de evidência do Deus do cristianismo é evidência de ausência (ver Schellenberg 2007 e Howard-Snyder & Moser 2001). O argumento se aplica além dos valores e teísmo cristãos, e a qualquer conceito de Deus em que Deus seja poderoso e bom, e que um relacionamento com um Deus tão bom seja satisfatório e bom para as criaturas. Não funcionaria com um conceito de Deus (como encontramos, por exemplo, no trabalho de Aristóteles), no qual Deus não está envolvido amorosamente e providencialmente no mundo. Essa linha de raciocínio é freqüentemente referida em termos da ocultação de Deus.

Evidencialismo é a visão de que, para uma pessoa ser justificada em alguma crença, essa pessoa deve ter alguma consciência da evidência da crença. Isso geralmente é articulado como a crença de uma pessoa sendo justificada, dada a evidência total disponível para a pessoa. Nesta visão, a crença em questão não deve ser minada (ou derrotada) por outras crenças evidentes mantidas pela pessoa. Além disso, os evidencialistas costumam afirmar que o grau de confiança em uma crença deve ser proporcional à evidência. O evidencialismo foi defendido por representantes de todos os diferentes pontos de vista da filosofia da religião: teísmo, ateísmo, defensores de modelos não-teístas de Deus, agnósticos.

O evidencialismo foi desafiado por muitos motivos. Alguns argumentam que é muito rigoroso; temos muitas crenças evidentes de que estaríamos perdidos para justificar com sucesso. Em vez de evidencialismo, alguns filósofos adotam uma forma de confiabilismo, segundo a qual uma pessoa pode ser justificada em uma crença desde que a crença seja produzida por meios confiáveis, independentemente de a pessoa estar ciente ou não de evidências que justifiquem a crença. Dois movimentos na filosofia da religião desenvolvem posições que não estão alinhadas com a tradição evidencial tradicional: epistemologia reformada e epistemologia volitiva.

A epistemologia reformada foi defendida por Alvin Plantinga (1932–) e Nicholas Wolterstorff (1932–), entre outros. A epistemologia reformada é "reformada" na medida em que se baseia no reformador João Calvino (1509-1564), que alegou que as pessoas são criadas com um senso de Deus ( sensus divinitatis). Embora esse senso de Deus possa não ser aparente devido ao pecado, ele pode levar as pessoas a acreditarem em Deus de maneira confiável e a sustentar uma vida de fé cristã. Embora esse estímulo possa desempenhar um papel evidencial em termos da experiência ou percepção ostensiva de Deus, também pode justificar a crença cristã na ausência de evidências ou argumentos (ver K. Clark & ​​VanArragon 2011; M. Bergmann 2017; e Plantinga & Bergmann 2016). Na linguagem introduzida por Plantinga, a crença em Deus pode ser tão adequadamente básica quanto nossas crenças comuns sobre outras pessoas e o mundo. A estrutura da epistemologia reformada é condicional à medida que avança a tese de que se existe um Deus e se Deus realmente nos criou com um sensus divinitatisque confiavelmente nos leva a acreditar (verdadeiramente) que Deus existe, então tal crença é justificada. Há um sentido em que a epistemologia reformada é mais uma estratégia defensiva (oferecendo motivos para pensar que a crença religiosa, se verdadeira, é justificada), em vez de fornecer uma razão positiva pela qual as pessoas que não têm (ou acreditam ter) um sensus divinitatis deve abraçar a fé cristã. Plantinga argumentou que pelo menos uma alternativa à fé cristã, o naturalismo secular, é profundamente problemática, se não auto-refutável, mas essa posição (se convincente) avançou mais como uma razão para não ser naturalista do que como uma razão de ser. um teísta. (Para uma versão mais forte do argumento de que o teísmo explica melhor a normatividade da razão do que as alternativas, veja Agents Under Fire de Angus Menuge, 2004.).

A epistemologia reformada não é um fideísmo ipso facto. O fideísmo apoia explicitamente a legitimidade da fé sem o apoio, não apenas de evidências (proposicionais), mas também da razão (MacSwain 2013). Por outro lado, a epistemologia reformada oferece uma explicação metafísica e epistemológica da garantia segundo a qual a crença em Deus pode ser garantida, mesmo que não seja apoiada por evidências, e oferece uma descrição da crença adequadamente básica, segundo a qual a crença básica em Deus é epistêmica. a par de nossas crenças básicas comuns sobre o mundo e outras mentes que parecem ser paradigmaticamente racionais. No entanto, embora a epistemologia reformada não seja necessariamente fideísta, ela compartilha com o fideísmo a idéia de que uma pessoa pode ter uma crença religiosa justificada na ausência de evidências.

Créditos: https://plato.stanford.edu/entries/philosophy-religion/#ReliEpis

Métodos

Para o estudo da filosofia da religião são usados os métodos histórico-crítico comparativo, o filológico e o antropológico. O primeiro deles compara as várias religiões no tempo e no espaço, em busca de seus aspectos mais comuns e suas diferenças, para verificar o que constitui a essência do fenômeno religioso. O segundo faz o estudo comparativo das línguas, visando encontrar as palavras utilizadas para descrever e expressar o sagrado e suas raízes comuns. O terceiro método procura reconstruir o passado religioso tendo por base a etnologia (estudo dos povos primitivos e atuais, suas instituições, crenças, rituais e tradições).A filosofia da religião deve fazer uma adequada conjugação desses métodos "para obter a melhor soma de elementos para chegar à conclusão mais correta sobre a essência da religião e suas características universais."

Histórico

Até o século XX, a história do pensamento filosófico ocidental encontrava-se intimamente associada às tentativas de esclarecer certos aspectos do paganismo, do judaísmo e do cristianismo, enquanto que em tradições como o hinduísmo, o budismo ou o taoismo, há uma distinção ainda menor entre a investigação filosófica e a religiosa.

O problema clássico de conceber um objeto apropriado para a crença religiosa consiste em compreender se é possível lhe atribuir algum termo: fará sentido dizer que esse objeto cria e conhece coisas, que deseja certos acontecimentos, que é bom ou providencial, que é uma ou muitas coisas?

Na teologia negativa afirma-se que Deus só pode ser conhecido quando negamos que os termos vulgares possam ser-lhe aplicados; outra sugestão influente é a de que os termos vulgares só se lhe aplicam metaforicamente, não existindo qualquer esperança de eliminar essas metáforas. Mas mesmo que se chegue a uma descrição do Ser Supremo, continuamos com o problema de encontrar um motivo para se supor que exista algo correspondente a essa descrição.

A época medieval foi a mais fértil em pretensas demonstrações da existência de Deus, como as cinco vias de Santo Tomás de Aquino, ou o argumento ontológico de Santo Anselmo. Essas provas deixaram de ter ampla aceitação desde o século XVIII, embora ainda convençam muitas pessoas e alguns filósofos.

De uma maneira geral, até os filósofos religiosos (ou talvez estes em especial) têm sido cautelosos em relação às manifestações populares da religião. Kant,[2] um simpatizante da fé religiosa, distinguiu várias perversões dessa fé: a teosofia[3] (uso de concepções transcendentais que confundem a razão), a demonologia (favorecimento de concepções antropomórficas do Ser Supremo), a teurgia (ilusão fanática de que esse ser pode nos comunicar sentimentos ou de que podemos exercer influência sobre Ele) e a idolatria ou a delusão supersticiosa de que podemos nos tornar aceitáveis perante o Ser Supremo através de outros meios que não o de ter a lei moral no coração (Crítica da faculdade do juízo, II.28).

No entanto, essas tendências para o contato arrebatado têm se tornado cada vez mais importantes na teologia moderna. Desde Feuerbach há uma tendência crescente na filosofia da religião em se concentrar nas dimensões sociais e antropológicas da crença religiosa (ver também jogo de linguagem, magia), ou para a conceber como uma manifestação de várias necessidades psicológicas explicáveis.

Outra reação consiste numa fuga para o elogio do comprometimento existencial puramente subjetivo (ver também existencialismo, Kierkegaard). No entanto, o argumento ontológico continua a atrair a atenção, e as tendências antifundacionalistas (ver fundacionalismo) da epistemologia moderna não são inteiramente hostis às pretensões cognitivas que se baseiam na experiência religiosa.

Leitura recomendada

  • The London Philosophy Study Guide oferece muitas sugestões sobre o que ler, dependendo da familiaridade do estudante do assunto: Filosofia da Religião
  • William L. Rowe, William J. Wainwright, Philosophy of Religion: Selected Readings, Third Ed. (Florida: Harcourt Brace & Company, 1998)
  • Religious Studies é um jornal internacional de filosofia da religião. É acessível online e em formato impresso; possui arquivos online a partir da edição n.º 1 de 1965. São publicadas quatro edições por ano.




Wikipédia, informa e ensina

A FENOMENOLOGIA DE EDMUND HUSSERL

 


A fenomenologia é um estudo que fundamenta o conhecimento nos fenômenos da consciência. Nessa perspectiva, todo conhecimento se dá a partir de como a consciência interpreta os fenômenos 

Esse método foi desenvolvido inicialmente por Edmund Husserl (1859-1938) e, desde então, tem muitos adeptos na Filosofia e em diversas áreas do conhecimento.

Para ele, o mundo só pode ser compreendido a partir da forma como se manifesta, ou seja, como aparece para a consciência humana. Não há um mundo em si e nem uma consciência em si. A consciência é responsável por dar sentido às coisas.

Na filosofia, um fenômeno designa, simplesmente, a forma como uma coisa aparece, ou manifesta-se, para o sujeito. Ou seja, trata-se da aparência das coisas.

Sendo assim, todo o conhecimento que tenha como ponto de partida os fenômenos das coisas podem ser compreendidos como fenomenológicos.

Com isso, Husserl afirma o protagonismo do sujeito perante o objeto, já que cabe à consciência atribuir sentido ao objeto.

Uma importante contribuição do autor é a ideia de que a consciência é sempre intencional, é sempre consciência de algo. Esse pensamento contraria a tradição, que entendia a consciência como possuidora de uma existência independente.

Na fenomenologia de Husserl, os fenômenos são a manifestação da própria consciência, por isso todo o conhecimento é também conhecimento de si. Sujeito e objeto acabam por se tornar uma e a mesma coisa.

Toda a consciência é consciência de algo.

O senso comum compreende um fenômeno como algo extraordinário ou fora do habitual. Já, a concepção do termo no vocabulário da filosofia representa, pura e simplesmente, como uma coisa aparece ou se manifesta.

O que é um Fenômeno?

Fenômeno tem origem na palavra grega phainomenon, que significa "aquilo que aparece", "observável". Portanto, fenômeno é tudo aquilo que possui uma aparição, que pode ser observável de algum modo.

Tradicionalmente, aparência é entendida como a forma como nossos sentidos apreendem um objeto, opondo-se à essência, que representa como as coisas realmente seriam. Em outras palavras, como as coisas seriam para elas mesmas, a "coisa-em-si".

Essa relação entre parecer e ser é crucial para a compreensão dos fenômenos e da fenomenologia. Husserl buscou alcançar as essências a partir da intuição gerada pelos fenômenos.

A Teoria Fenomenológica de Husserl

O grande objetivo de Husserl com sua Fenomenologia era a reformulação da filosofia. Para ele, era preciso refundar a filosofia e estabelecer a fenomenologia como método, sem que isso constituísse a ciência proposta pelo positivismo.

A filosofia deveria voltar-se para a investigação sobre as possibilidades e limites do conhecimento científico, afastando-se das ciências, sobretudo, da psicologia, que analisa os fatos observáveis, mas não estuda as condições que levam a essa observação. O estudo dos fundamentos das ciências caberia à filosofia.

Os fenômenos são entendidos pela representação que a consciência faz do mundo. O entendimento deve ser entendido sempre como "consciência de algo". Com isso, o autor nega a ideia tradicional da consciência como uma qualidade humana, vazia, que pode ser preenchida com algo.

Essa sutil, mas relevante diferença, traz consigo um novo modo de concepção do conhecimento e de representação do mundo.

As coisas do mundo não existem por si, da mesma forma que a consciência não possui uma independência dos fenômenos. Há uma forte crítica à separação entre sujeito e objeto, tradicional das ciências.

Para Husserl, o conhecimento é construído a partir de inúmeras e pequenas perspectivas da consciência, que quando organizadas e retiradas as suas particularidades, produzem a intuição sobre a essência de um fato, ideia ou pessoa. São os chamados fenômenos da consciência.

Husserl compreende que essa reformulação poderia fazer com que a filosofia superasse sua crise e fosse entendida, definitivamente, como uma concepção metódica do mundo. Ele afirma a existência de "elementos transcendentais do conhecimento", os quais são acúmulos que vão condicionar a experiência dos indivíduos no mundo.

Para ele, a experiência, pura e simplesmente, não se configura em ciência, e que o conhecimento possui uma intencionalidade. Não se produz conhecimento, senão por uma necessidade e um ato intencional da consciência.

O que Husserl queria dizer é que os fenômenos são manifestações que só possuem sentido quando interpretados pela consciência.

Sendo assim, a consciência de algo varia de acordo com o contexto no qual ela está inserida. Cabe ao filósofo interpretar os fenômenos, única e exclusivamente, tal qual eles aparecem.

Aparência e Essência nos Fenômenos

Platão (427-348), em sua "teoria das ideias", afirmava que a aparência das coisas é falsa e o verdadeiro conhecimento devia ser buscado pelo uso exclusivo da razão. Para ele, os fenômenos são falhos, pois nossos sentidos são fontes de enganos.

Esse pensamento influenciou todo o pensamento ocidental e sua separação e hierarquização entre a alma (razão) e o corpo (sentidos).

Aristóteles (384-322), discípulo crítico de Platão, manteve esse pensamento de superioridade entre a razão e os sentidos, mas deu uma abertura para a relevância dos sentidos na construção do conhecimento. Para ele, ainda que os sentidos sejam falhos, são o primeiro contato dos indivíduos com o mundo e isso não deve ser desprezado.

Na filosofia moderna, as questões relacionadas à aquisição do conhecimento, de maneira simplificada, eram disputadas entre o racionalismo e seu oposto, o empirismo.

Descartes (1596-1650), como representante do racionalismo, afirmou que somente a razão pode dar fundamentos válidos para o conhecimento.

E, o empirismo radical, proposto por Hume (1711-1776), atesta que em meio a total incerteza, deve-se basear o conhecimento na experiência gerada pelos sentidos.

Kant (1724-1804) buscou unir essas duas doutrinas, ao reforçar a importância do entendimento, levando em conta os limites da razão. Para ele, jamais pode-se compreender a "coisa-em-si", a compreensão dos fenômenos se dá a partir do entendimento e os esquemas mentais interpretam as coisas no mundo.

Hegel e a Fenomenologia do Espírito

A Fenomenologia do Espírito de Hegel (1770-1831) propõe que a manifestação do espírito humano é a história. Esta compreensão eleva a fenomenologia a um método das ciências.

Para ele, a história se desenvolve de maneira a evidenciar o espírito humano. Há uma identificação entre o ser e o pensar. Essa relação é o fundamento de uma compreensão do espírito humano como construído social e historicamente.

Como ser e pensar é uma e a mesma coisa, o estudo das manifestações dos seres é também o estudo sobre a própria essência do espírito humano.

Autor: Pedro Menezes é professor de Filosofia, Mestre em Ciências da Educação






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"É PRECISO ENSINAR A COMPREENSÃO HUMANA"

 

“É preciso ensinar a compreensão humana” – Edgar Morin

Nos acostumamos a acreditar que pensamento e prática são compartimentos distintos da vida. Quem pensa o mundo não faz o mundo e vice-versa. Mas, houve um tempo em que os sábios, eventualmente chamados de cientistas ou artistas, circulavam por diversos campos da cultura. Matemática, física, arquitetura, pintura, escultura eram matéria-prima do pensamento e da ação. A revolução industrial veio derrubar a ideia do saber renascentista e, desde o século 19, a especialização foi ganhando força.

Mas, sempre haverá quem nos lembre que a vida é produto de um contexto, de um acúmulo de vivências e ideias. Pense num filósofo que pegou em armas contra o nazismo para depois empunhar as ferramentas da retórica contra o stalinismo, que reconhece a importância dos saberes dos povos originais sem abrir mão de pensar e repensar a educação formal.

Com mais de 90 anos, o francês Edgar Morin, nascido e criado Edgar Nahoum no início do século 20, é um dos mais respeitados pensadores do nosso tempo. Com uma gigantesca produção literária, pedagógica e filosófica. Em tempos de radicalismos, Morin é herdeiro do melhor do humanismo francês. Em entrevista ao programa Milênio, Edgar Morin fala sobre o extremismo e o significado da educação na contemporaneidade. Leia abaixo:

Gostaria de começar com uma questão generalista. Sociólogo, antropólogo, filósofo, professor, escritor, e até, às vezes, jornalista. Qual a melhor definição de Edgar Morin e por quê?

A melhor definição seria não ter definição. De se bastar. A palavra “filósofo” talvez me conviesse bem, mas hoje a filosofia, no geral, se fechou em si mesma e a minha é uma filosofia que observa o mundo, os acontecimentos, etc. Sou muito marginal, quer dizer, sou marginal em todas essas áreas. Então, sou aquele que querem que eu seja.

Seria mais correto falar em um pensador do estilo renascentista, alguém que mistura um pouco essas histórias todas?

Não exatamente que mistura, mas que tenta fazer a ligação, que tenta ter uma cultura feita de conhecimentos que hoje estão dispersos. Mas, é verdade que o Renascentismo foi admirável pelos homens que tinham um conhecimento, não digo enciclopédico, mas aberto a várias áreas. Se quiserem, acho que as perguntas fundamentais de cada um a si mesmo, “quem somos nós, para onde vamos e de onde viemos?”, são questões fundamentais, precisamos respondê-las e não afastá-las.

A tragédia do nosso sistema de conhecimento atual é que ele compartimenta tanto os conhecimentos que a gente não consegue se fazer essas perguntas. Se perguntarmos “O que é o ser humano?”, não teremos respostas, porque as diferentes respostas estão dispersas. E, no fundo, é isso que chamo de pensamento complexo, um pensamento que reúne conhecimentos separados.

E esse pensamento complexo do qual o senhor fala estaria em oposição a um pensamento simples. Como se dá esse duelo hoje, num setor que o senhor conhece bem, o ensino?

O que chamo de desafio da complexidade é que estamos em um mundo onde encontramos problemas tão difíceis e separados, e uni-los. Como fazer isso? Eu fiz um trabalho ao longo de muitos anos para, de certa forma, elaborar um método que possibilite a união desses saberes, porque não podemos simplesmente sobrepor, é preciso articulá-los.

Acredito que, para uma melhor compreensão da realidade, para entender quem somos, que você é um ser complexo, que eu sou um ser complexo, não podemos estar reduzidos a um único aspecto da personalidade, para saber que a sociedade é complexa, para entender a globalização. Acredito que é sim necessário um pensamento assim, senão temos um pensamento mutilado, o que é muito grave, porque um pensamento mutilado leva a decisões erradas ou ilusórias.

E como traduzir isso para os alunos, para as novas gerações, por meio do ensino? Como é possível encarar essa tarefa tão difícil para os educadores, para aqueles que estudam a educação e querem passar adiante esse pensamento mais complexo, com uma visão um pouco mais ampla do mundo do que aquela homogeneizada, simplista, com certezas bastante frágeis?

Eu proponho, no ensino, a introdução de temas fundamentais que ainda não existem. Quer dizer, proponho introduzir o tema do conhecimento, pois damos conhecimento sem nunca saber o que é o conhecimento. Mas, como todo conhecimento é uma tradução seguida de uma reconstrução, sempre existe o risco do erro, o risco de alucinações, sempre.

Eu proponho o método de incluir esses temas, de incluir o tema da compreensão humana. É preciso ensinar a compreensão humana, porque é um mal do qual todos sofrem em graus diferentes. Começa na família, onde filhos não são compreendidos pelos pais e os pais não entendem seus filhos. Pode continuar na escola, com os professores e os colegas. Continua na vida do trabalho, no amor e acho que temos que ensinar também a enfrentar as incertezas. Porque em todo destino humano há uma incerteza desde o nascimento. A única certeza é a morte e não sabemos quando. Mas, é claro que estamos em meio, não apenas das incertezas que chamaria de normais, de saúde, casamento, trabalho, mas também uma incerteza histórica impressionante.

Antes, a gente achava que existia um progresso certo e agora o futuro é uma angústia. Por isso, suportar, enfrentar a incerteza é não naufragar na angústia, saber que é preciso, de certa forma, participar com o outro, de algo em comum, porque a única reposta aos que têm a angústia de morrer é o amor e a vida em comum.

Isso nos traz a um dos muitos caminhos que temos para nos conhecer e conhecer o outro, que é a participação política. E o senhor, desde muito cedo, teve uma participação política muito importante. Na Resistência e, depois, com suas relações no Partido Comunista. Mas, muito cedo também, o senhor aprendeu a fazer essa autocrítica e não hesitou em criticar duramente o Partido Comunista e a ascensão da URSS Stalinista, depois da China maoísta. Mais recentemente, a globalização. Politicamente, hoje, qual a luta que o senhor considera que vale a pena lutar? Sabemos que o mundo vive uma crise profunda de representação nas democracias, nos partidos, nos sindicatos. Como fazer essa luta política?

Antes de mais nada, é preciso entender bem que estamos ameaçados, cada vez mais, por duas barbáries. A primeira barbárie a gente conhece, vem desde os primórdios da história, que é a crueldade, a dominação, a subserviência, a tortura, tudo isso. A segunda barbárie, ao contrário, é uma barbárie fria e gelada, a do cálculo econômico. Porque quando existe um pensamento fundado exclusivamente em contas, não se vê mais os seres humanos. O que se vê são estatísticas, produtos burros. No fundo, o cálculo, que é útil, mas como instrumento, se torna um meio de conhecimento, mas de falso conhecimento, que mascara a realidade humana.

No fundo, assim que entra o cálculo, os humanos são tratados como objetos. E hoje, com o domínio justamente do poder e do dinheiro, com o domínio do mundo burocrático, tudo isso, é o reino da barbárie gelada. Se preferir, é preciso repensar a política e nós estamos na pré-história desse momento. É preciso saber se as forças negativas, a corrente negativa vai ser mais forte do que as forças positivas que tentam se levantar hoje no mundo e são ainda muito dispersas.

Como fazer com que todas essas ferramentas, que existem e foram desenvolvidas nas últimas décadas, possam ser utilizadas de uma forma, digamos, mais positiva?

Antes de mais nada, é verdade que informação não é conhecimento. Conhecimento é a organização das informações. Então, estamos imersos em informações e como elas se sucedem dia a dia, de certa forma, não temos como ter consciência disso. De outra parte, os conhecimentos, como eu disse, estão dispersos. É preciso uni-los, mas falta esse pensamento complexo. Dito isso, quando pensamos sobre a internet, a internet virou uma força incrível, eu diria que em todas as direções, tanto para o lado negativo quando para o positivo.

O que há de extraordinário na internet e em todos esses meios que você citou é que, hoje, um Estado pode controlar um indivíduo em todos os seus gestos e atos, mesmo quando ele está na rua lendo um jornal. Podemos ser controlados. Mas, ao mesmo tempo, através da internet, um ou dois indivíduos razoavelmente talentosos em matemática podem decifrar os segredos do Pentágono, segredos diplomáticos dos mais importantes do Estado mais forte do mundo.

O senhor acha que neste mundo, com tantas coisas que regridem, um país como o Brasil que o senhor conhece tanto tem algo a ensinar aos outros notadamente quando se vê essa sociedade mestiça, essa mistura que existe de verdade. Mesmo que tenhamos os nossos problemas com o racismo, nossos problemas de exclusão e tudo isso. Mas, o senhor acha que essa sociedade brasileira, com todos esses problemas, tem algo a ensinar?

Apesar dos limites, digamos, do caráter de segregação social, é uma sociedade indiscutivelmente mestiça, que conseguiu integrar contribuições vindas da África. Nunca em outro país a contribuição africana foi tão intensamente integrada nos costumes, nem que seja na gastronomia, nas danças, nos cantos. É um país muito interessante também onde, no Sul, que tem muitos imigrantes alemães e italianos e o Nordeste, que é muito diferente com sua população, os caboclos… Apesar dessa grande diversidade, é um país que nunca quis se separar. Vejam a Itália, a Itália do Norte quer se separar da do Sul, veja a Inglaterra, a Escócia quer deixar o Reino Unido.

No Brasil, mesmo com toda essa extraordinária heterogeneidade, existe uma cultura comum que mantém a unidade. Ou seja, pra mim, o Brasil é um grande estimulante. Um estimulante intelectual, mas também humano, pois tem um calor humano, um sentimento de familiaridade, que também perdemos na França e encontramos, muito vivo, no Brasil.

Eu já o vi e li dizendo que o monoteísmo era o flagelo da humanidade. Queria saber se o senhor mantém essa posição hoje, frente ao que vemos no Oriente Médio e nas lutas nacionalistas que misturam a religião à importância nacional.

A fórmula é parcialmente verdadeira. Por quê? Porque há outro aspecto muito presente no Cristianismo, sobretudo no Cristianismo de caráter evangélico, e também no Islã, onde também há como princípio um Deus magnânimo e misericordioso. Existe um universalismo, porque o Cristianismo e o Islã se dirigem a todos os homens, a todos os seres humanos, não importa a raça. Quando vemos a história do Cristianismo, há uma renovação dessa fonte de fraternidade e de evangelismo. Mas, quando olhamos a mesma história do Cristianismo, também vemos guerras religiosas, a Inquisição, as perseguições, as fogueiras, as cruzadas e tudo isso. E quando olhamos para a história do Islã também.

Dito isso, o que é o monoteísmo? É o que vê a unidade no mundo. O que é o politeísmo? É o que vê a diversidade no mundo, que vê, como os antigos gregos, mas também no Candomblé, vocês têm Iemanjá, deusa das águas, têm os outros, dá pra dizer que são complementares. Uns veem a diversidade e outros a unidade. Mas, o politeísmo sempre foi mais tolerante do que o monoteísmo, sempre foi menos dogmático. E, se hoje, o Hinduísmo fica agressivo contra o Islã é que ele próprio vive uma luta entre duas religiões, mas, em princípio, as religiões politeístas são mais… Mas, como estou fora dessas religiões, apenas constato. Acredito que a virtude dos politeístas seja a de respeitar também a natureza. Quando se tem a Pacha Mama, da tradição andina, temos o amor da mãe terra. O Cristianismo separou, como aliás o Islã, os dois tendo a mesma fonte, a Bíblia. Dizem que Deus criou o homem à sua imagem, diferente da dos animais. Paulo disse que os humanos podem ressuscitar, mas os animais não.

Criamos a dissociação com a natureza, acentuada pela civilização ocidental, dizendo que, através da ciência e da tecnologia podemos dominar e controlar a natureza. Mas, é preciso reencontrar o sentido da natureza de uma forma não mais politeísta, mas humana, quer dizer, sentir essa vida, esse sentimento que expressava Spinoza, que a criatividade e a divindade estão na natureza.

Qual seria, então, na sua opinião, o maior desafio do ensino escolar hoje no mundo? Fazer esse equilíbrio sociedade tecnológica e humana, o equilíbrio entre o dinheiro e o saber, entre o humanismo e a individualidade?

Antes de mais nada, é não se deixar contaminar pela lógica da empresa. Uma universidade não é uma empresa, é como um hospital, não é uma empresa. A lógica não é a do lucro, não é a dos benefícios, não é a do equilíbrio orçamentário, é outra lógica. Depois, não obedecer ao dogma da avaliação. Avaliamos e avaliamos, quando, na realidade, a avaliação também é um jeito de calcular que ignora a complexidade das realidades humanas.

O objetivo do ensino deve ser ensinar a viver. Viver não é só se adaptar ao mundo moderno. Viver quer dizer como, efetivamente, não somente tratar as grandes questões de que falamos, mas como viver na nossa civilização, como viver na sociedade de consumo. Produzimos coisas descartáveis em vez de objetos reparáveis, que possam ser consertados. Então há toda uma lógica e é preciso dar, no ensino, os meios àqueles que vão se tornar adultos, de poder escolher alimentos, consumo, não usar o que não é bom e favorecer o que tem qualidade e o que é artesanal.

Acho que é preciso ensinar não só a utilizar a internet, mas a conhecer o mundo da internet. É preciso ensinar a saber como é selecionada a informação na mídia, pois a informação sempre passa por uma seleção – como e por quê? É preciso ensinar, há todo um ensinamento, para nossa civilização, que não está pronto. Tem isso e ainda o ensino dos problemas fundamentais e globais. Essa é a reforma fundamental que precisa ser feita.

Para terminar, professor, o que é que alimenta suas esperanças num mundo melhor?

A esperança é a ideia que o futuro já que é incerto e já que é desconhecido, pode justamente ser melhor e, no fundo, meu sentimento profundo é que eu sou um pedacinho temporário, numa gigantesca aventura, que é a da humanidade, que começou, talvez, há sete milhões de anos, quando um primata virou bípede. Que continuou e seguiu pela pré-história, a história, o fim dos impérios, os acontecimentos, as guerras mundiais. Uma aventura absolutamente incrível. E como o passado é incrível, eu sei que o futuro também será incrível.

Mas, sinto que faço parte dessa totalidade, querendo ou não. Isso também me leva para frente. Não renuncio. Sem querer, sou animado por esse sentimento de estar na aventura e quero também dar, mesmo que seja pequena, minha contribuição a isso. É isso que também me encoraja. Não tenho só esperança, tampouco desespero. Mesmo que saiba que a vida é, ao mesmo tempo, magnífica e trágica.

Uma das minhas máximas favoritas é: “o que não se regenera, degenera.” Nada está estabelecido para sempre. Se você tem a democracia, não é para sempre, pode degenerar. Se acabou com a tortura, não é para sempre, pode voltar. Quer dizer, é preciso estar com as forças da regeneração e sentir a necessidade dessas forças de regeneração me tonifica, me faz bem e espero fazer o bem também.

Fonte: Programa Milênio | Fronteiras do Pensamento