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22_08

A FELICIDADE: MATTHIEU RICARD

 


Matthieu Ricard é um monge budista ordenado e um autor internacionalmente best-seller de livros sobre altruísmo, direitos dos animais, felicidade e sabedoria. Seus esforços humanitários levaram seu país de origem a conceder-lhe a Ordem Nacional do Mérito da França — a residência principal de Ricard é um mosteiro no Nepal.

Ele foi intérprete francês do Dalai Lama e possui um doutorado em genética celular. No início dos anos 2000, pesquisadores da Universidade de Wisconsin descobriram que o cérebro de Ricard produzia ondas gama, que foram relacionadas a aprendizado, atenção e memória, em níveis tão elevados que ele ficou conhecido como “o homem mais feliz do mundo”.

Tenho meditado há 15 anos e isso melhorou minha capacidade de controlar meus pensamentos e emoções. Mas ainda fico irritado se não encontro uma vaga para estacionar. Será que essas coisas vão embora?

Bem, elas podem. Uma vez eu estava no India Today Conclave [evento anual que reúne pensadores de vários campos] e pediram: “Você pode nos dar os três segredos da felicidade?” Eu disse: “Primeiro, não tem segredo. Em segundo lugar, não há apenas três pontos. Terceiro, leva uma vida inteira, mas é a coisa mais valiosa que você pode fazer”. Fico feliz em sentir que estou no caminho certo. Não consigo imaginar sentir ódio ou querer que alguém sofra.

Não é a melhor coisa a dizer, mas posso facilmente imaginar querer que certas pessoas sofram. Como lidar graciosamente com nossos opostos em um mundo cada vez mais dividido?

Uma vez, há muito tempo, alguém me perguntou com quem eu gostaria de passar 24 horas a sós. Eu disse: “Saddam Hussein. Talvez, quem sabe, alguma pequena mudança nele seja possível”. Quando falamos de compaixão, você quer que todos encontrem a felicidade. Sem exceção. Você não pode querer isso apenas por aqueles que são bons ou próximos. Tem que ser universal. Você pode dizer que Vladimir Putin e Bashar al-Assad são a escória da humanidade, e com razão. Mas a compaixão trata de remediar o sofrimento e sua causa. Como? Você pode desejar que o sistema que permitiu que alguém assim surgisse seja mudado. Às vezes, visualizo Donald Trump indo a hospitais, cuidando de pessoas, levando migrantes para sua casa. Você pode desejar que a crueldade, a indiferença, a ganância desapareçam da mente dessas pessoas. Isso é compaixão; isso é ser imparcial.

 

Mas por que a compaixão tem que ser universal?

Porque isso é diferente do julgamento moral. Isso não te impede de dizer que são psicopatas ambulantes, que não têm coração. Mas a compaixão é remediar o sofrimento onde quer que esteja, seja qual for a sua forma e seja quem for que o cause. Então, qual é o objeto de compaixão aqui? É o ódio e a pessoa sob seu poder. Se alguém bate em você com um pedaço de pau, você não fica bravo com o pau — você fica bravo com a pessoa. Essas pessoas de quem estamos falando são como paus nas mãos da ignorância e do ódio. Podemos julgar os atos de uma pessoa em um determinado momento, mas a compaixão é desejar que o sofrimento e as causas dele possam ser remediadas.

As pessoas têm se referido a você como o homem mais feliz do mundo. Você sente toda essa felicidade?

Isso é uma grande piada. Não podemos conhecer o nível de felicidade por meio da neurociência. É um bom título para os jornalistas usarem, e eu não consigo me livrar dele.

De qualquer forma, eu aproveito cada momento da vida, mas é claro que há momentos de tristeza extrema —especialmente quando você vê tanto sofrimento. Mas isso deve acender sua compaixão, e se isso acontecer, você caminha para uma existência mais forte, saudável e significativa. Isso é o que eu chamo de felicidade.

Não é como se o tempo todo você estivesse pulando de alegria. A felicidade é mais uma linha de base. É para onde você volta após os altos e baixos, alegrias e tristezas.

 

Você já sentiu desespero?

Não há sentido. Podemos nos sentir tristes se virmos sofrimento, mas a tristeza não é contra um profundo sentimento de eudaimonia [palavra grega usada por Aristóteles para descrever a felicidade alcançada por pessoas que baseiam suas ações na razão e na moral], de realização, porque a tristeza se vai com a compaixão, com a determinação de remediar a causa. Desespero: você está no fundo do buraco, não tem saída. Isso é fatalismo. Mas o sofrimento vem de causas e condições. Esses são impermanentes, e a impermanência é o que permite a mudança.

 

Sua resposta sugere que você está fazendo escolhas conscientes sobre seus sentimentos. Isso não é algo que todo mundo é capaz.

As emoções são como qualquer característica da mente: elas podem mudar. Podemos ficar mais familiarizados com esse processo e identificá-lo cedo. É como quando você vê um batedor de carteira em uma sala: “Aha, cuidado”. 2.500 anos de budismo e 40 anos de neuroplasticidade: tudo diz que podemos mudar. Você não nasceu sabendo escrever suas matérias. Você sabe que é fruto do seu esforço. Então, por que as principais qualidades humanas seriam gravadas em pedra desde o início? Isso seria uma exceção em comparação a todas as outras habilidades que temos. É por isso que gosto da ideia que a felicidade é uma habilidade.

 

Mas alguém ainda poderia dizer: Sim, mas como eu mudo? A resposta é tão simples quanto “comece a pensar em compaixão”?

Quando você está naquele momento de amor incondicional — por uma criança, por exemplo — isso preenche nossa mente por 30 segundos, talvez um minuto, e de repente se vai. Todos nós já experimentamos isso. A única diferença é cultivar isso de alguma forma. Fazer com que isso permaneça um pouco mais. Tente ficar com essa sensação por 10, 20 minutos. Se desaparecer, tente trazer de volta. Dê vibração e presença para esse sentimento. Isso é exatamente do que se trata a meditação. Se você fizer isso por 20 minutos por dia, mesmo que por três semanas, desencadeará uma mudança.

 

Poderia sugerir um pensamento que as pessoas possam levar e que possa ser útil para elas ao passarem pelos desafios da vida?

Se puder, cultive o calor humano e deseje genuinamente que outras pessoas sejam felizes; essa é a melhor maneira de preencher sua própria felicidade. Esse também é o estado de espírito mais gratificante. Há aqueles que acreditam no egoísmo e dizem: “Você faz isso (boas ações) para se sentir bem” — isso é tão estúpido. Porque se você ajudar os outros, mas não se importar nem um pouco, então você não sentirá nada! Querer separar as ações pelos outros do sentimento de bem-estar próprio é como tentar fazer uma chama queimar apenas com luz: sem produzir calor. Se tentarmos humildemente aumentar nossa benevolência, essa será a melhor maneira de ter uma vida boa. É o melhor conselho que eu poderia dar.



O SEGREDO DA FELICIDADE

 


Há anos que os cientistas da Universidade de Wisconsin, nos EUA, estudam o cérebro de Matthieu Ricard, doutor em biologia molecular, monge budista do mosteiro Shechen Tennyi Dargyeling, no Nepal, e assessor pessoal do Dalai Lama, assim como seu intérprete. E estão absolutamente fascinados com a mente deste francês de 74 anos.

Os pesquisadores submeteram o cérebro de Ricard a ressonâncias magnéticas nucleares constantes com duração de até três horas.
Eles chegaram a conectar 256 sensores na cabeça dele para detectar seu nível de estresse, irritabilidade, aborrecimento, prazer, satisfação e dezenas de outras sensações diferentes. E fizeram o mesmo com centenas de voluntários. 
Os resultados obtidos mediram o nível de felicidade de cada participante em uma escala de 0,3 (muito infeliz) a -0,3 (muito feliz).
Matthieu Ricard alcançou nada menos que -0,45, superando não apenas todos os outros participantes, mas também os próprios limites estabelecidos pelo estudo.
A partir daí, ele foi declarado "o homem mais feliz do mundo".
Ricard — filho do conhecido filósofo francês Jean-François Revel e da pintora Yahne Le Toumelin — escreveu o livro A nous la liberté ("Viva a Liberdade", em tradução livre) junto com o filósofo Alexandre Jollien e o psiquiatra Christophe André, que foi um best-seller na França.
Na obra, os três autores explicam como superar os medos, traumas, preconceitos e vícios que nos perseguem. Resumindo: como vencer os obstáculos que nos impedem de ser felizes.
A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, conversou com Ricard sobre tudo isso. Confira a entrevista:
BBC News Mundo - Você foi declarado "o homem mais feliz do mundo". Como você se sente com esse título?
Matthieu Ricard - Pense por cinco segundos: como alguém pode saber o nível de felicidade de 7 bilhões de seres humanos? Não faz sentido, certamente não do ponto de vista científico.
Tudo começou com um artigo em um jornal britânico que, com base em uma pesquisa realizada no laboratório de neurociência de Richard Davidson em Wisconsin, mostrou que pessoas que, assim como eu, passaram muito tempo meditando (havia 15 entre as que participaram do estudo) apresentaram ao meditar uma magnitude de ativação em certas áreas do cérebro sobre compaixão (e não felicidade!) mais alta do que havia sido detectado até então na neurociência.
Então está mais para a "maior piada do mundo", mas isso continua vindo à tona indefinidamente.
BBC News Mundo - O que é felicidade para você?
Ricard - A felicidade não é simplesmente uma sucessão interminável de sensações prazerosas, o que parece mais uma receita para a exaustão.
Está mais para uma forma ideal de ser que resulta do cultivo de muitas qualidades fundamentais, como altruísmo, compaixão, liberdade interior, resiliência, equilíbrio emocional, equilíbrio interior, paz interior e outras.
Diferentemente do prazer, todas essas qualidades são habilidades que podem ser cultivadas por meio da prática e do treinamento de nossa mente.
BBC News Mundo - Você se considera um homem feliz?
Ricard - Bom, mesmo que eu não seja a "pessoa mais feliz do mundo", pelos motivos que acabei de explicar, também não posso dizer que sou infeliz.
Tive uma vida maravilhosa, graças a conhecer homens e mulheres sábios, meus professores espirituais.
Também estou bem porque me sinto satisfeito facilmente com muito pouco. Doei todo dinheiro arrecadado com meus livros e fotografias a causas humanitárias.
Há 20 anos, fundei uma organização humanitária, a Karuna-Shechen, que agora ajuda mais de 300 mil pessoas todos os anos nas áreas de saúde, educação e serviços sociais, sobretudo na Índia, Nepal e Tibete, e em breve também na França. E esse é um grande motivo de satisfação.
Graças à minha prática espiritual, pessoalmente disfruto de cada momento da vida e tento servir aos outros.
BBC News Mundo - E qual é o segredo da felicidade?
Ricard - Altruísmo e compaixão.
A busca da felicidade egoísta não funciona, é uma situação em que todos perdem. Você torna sua própria vida miserável, enquanto torna a vida dos outros miserável.
Em contrapartida, o altruísmo é uma situação em que todos ganham.
O objetivo é levar felicidade aos outros e remediar seu sofrimento e, como bônus, a pessoa sente grande felicidade por ser gentil e benevolente.
BBC News Mundo - Você é celibatário, não faz sexo desde os 30 anos, e não tem dinheiro, tudo o que ganha doa para obras de caridade. Sexo e dinheiro são os dois símbolos mais proeminentes da cultura moderna. O que há de errado com eles?
Ricard - Não há nada errado. Não é o desejo como tal e a riqueza que causam sofrimento, mas nosso apego a eles.
No momento em que o apego, o apego e a obsessão se instalam, você pode ter certeza de que o tormento virá.
O problema é se apegar, ficamos viciados.
BBC News Mundo - Agora uma pergunta para o biólogo: a tristeza é algo que criamos em nosso cérebro ou é a sociedade que nos faz infelizes?
Ricard - Bom, vários estudos mostram que uma mente distraída não é uma mente feliz, que uma mente ruminante não é uma mente feliz e que a sensação exacerbada de auto importância também não leva à felicidade.
BBC News Mundo - É possível ser feliz no mundo de hoje sem ser um monge budista?
Ricard - Claro! Seria uma pena se a felicidade se limitasse aos budistas e ainda mais a ser monge!
Qualquer um pode ser a mulher ou o homem mais feliz do mundo (não de maneira competitiva!). Simplesmente sendo gentil, compassivo, aberto aos outros e se sentindo facilmente satisfeito com as condições externas.
BBC News Mundo - Você sempre foi uma pessoa feliz ou percorreu um longo caminho para ser?
Ricard - Os amigos que me conheceram quando eu era adolescente (ainda há alguns vivos) dizem que eu era um jovem rabugento.
Acho então que fiz um pequeno progresso, embora ainda tenha um longo caminho a percorrer.
BBC News Mundo - A felicidade é um dom genético, algo com que se nasce, ou é algo que você pode aprender?
Ricard - Todos nós temos várias tendências naturais, relacionadas à nossa herança genética. Mas isso pode mudar muito.
Sabemos por meio de estudos de epigenética que os genes podem se manifestar ou não ser, dependendo de condições externas.
Também sabemos por meio de estudos do cérebro que podemos mudar por meio de treinos, graças à neuroplasticidade cerebral.
E sabemos por meio das tradições contemplativas que se praticarmos por muito tempo as qualidades humanas básicas que mencionei, o altruísmo acima de tudo, definitivamente podemos mudar para o futuro.
BBC News Mundo - O "homem mais feliz do mundo" fica triste?
Ricard - Claro, é absolutamente normal e desejável ficar triste diante de um massacre, de uma injustiça, de uma discriminação, de um abuso, de uma injustiça social, da pobreza em meio à abundância, da exploração cega de animais, etc.
Mas essa tristeza deve levar a uma ação compassiva para fazer algo a respeito dos vários sofrimentos relacionados.
A tristeza não é desespero, é compatível com o florescimento genuíno.
BBC News Mundo - Em seu último livro, A nous la liberté, você reflete sobre como alcançar a liberdade interior. O que é a liberdade interior?
Ricard - A liberdade interior é estar livre de traços mentais, reflexões e projeções mentais que eventualmente se traduzem em frustração e sofrimento.
BBC News Mundo - Se não alcançarmos a liberdade interior, isso significa que somos escravos? Escravos de quê?
Ricard - "Escravo" talvez seja uma palavra importante, mas quando somos completamente dominados pelo ódio, pelo desejo compulsivo, pelo ciúme persistente e pelo orgulho arrogante, somos de alguma forma escravos de nossas próprias fabricações mentais.
Nesse caso, nossa mente está longe de ser livre e segue cegamente suas atrações e repulsas, atribuindo a elas uma espécie de existência sólida: acreditamos que algo é inerentemente desejável ou alguém inerentemente detestável, o que nunca é assim.
BBC News Mundo - Todo mundo pode alcançar a liberdade interior?
Ricard - Por que não? Afinal, é nossa própria mente.
Nosso controle das condições externas é limitado, efêmero e, muitas vezes, ilusório, mas podemos trabalhar com nossa própria mente enquanto lidamos com ela de manhã até a noite.
Nossa mente pode ser nossa melhor amiga ou pior inimiga; é a mente que traduz as circunstâncias externas em felicidade ou infelicidade.
Portanto, se pudermos treinar um pouco essa criança mimada que é a mente e dominá-la um pouco, será de grande ajuda para nos libertarmos de nossas tendências habituais e pensamentos automáticos e assim sermos mais felizes.
BBC News Mundo - Qual é o maior obstáculo para alcançar a liberdade interior?
Ricard - Há muitos obstáculos, incluindo ser viciado em sofrimento, seguir cegamente todos os nossos estados mentais aflitivos e não reconhecer o potencial de transformação que existe dentro de todos nós.
Mas o principal obstáculo é a confusão mental, a falta de discernimento e sabedoria.
BBC News Mundo - Se você pudesse dar apenas um conselho para alcançar a liberdade interior, qual seria?
Ricard - Não existe apenas um conselho. Leva tempo e perseverança, mas é a aventura mais inspiradora da vida.
Uma coisa é certa: devemos nos livrar do egoísmo e cultivar a bondade, a benevolência e a compaixão.
BBC News Mundo - Nosso cérebro foi projetado para alcançar a liberdade interior? Se foi, por que é tão difícil obtê-la?
Ricard - Nosso cérebro não foi projetado de uma forma ou de outra.
Graças à plasticidade do cérebro, ele se converte naquilo a que nos acostumamos: se ficarmos com raiva o tempo todo, as redes correspondentes serão reforçadas na mente.
Se cultivarmos o altruísmo e o equilíbrio emocional, a rede cerebral correspondente será fortalecida.
Todos os estudos neurocientíficos mostraram que cultivar a atenção, a compaixão e nos libertar de pensamentos obsessivos produz mudanças tanto funcionais quanto estruturais no cérebro.
BBC News Mundo - Você é biólogo molecular e monge budista. O que você aprendeu com a biologia e o budismo para alcançar a liberdade interior?
Ricard - Ótima questão, de fato.
A ciência me ensinou o gosto por um enfoque rigoroso da realidade, o oposto da crença cega.
A ciência me livrou de acreditar em todo tipo de loucura, como acontece cada vez mais hoje em dia.
Quanto ao budismo, ele me dá a chave para uma liberdade interior que pode ser alcançada por meio de uma vida inteira de prática.
Fonte: BBC.


21_04

COMO O BUDISMO VÊ OS ANIMAIS?



 "Como um ser senciente que não têm a mesma sofisticação do homem – chamado de inteligência – mas como ele tenta evitar o sofrimento e atingir o bem-estar. Esta aspiração deve ser respeitada. Neste sentido, a não violência frente aos os animais é uma extensão lógica do que defendemos para os seres humanos". - Matthieu Ricard, monge budista tibetano, autor e tradutor de S.S. o Dalai Lama, PHD em biologia molecular.