"O teórico que afirma que a ciência é tudo o que há – e que o que não estiver nos livros de ciência não tem valor para ele – é um ideólogo com uma doutrina própria, distorcida e peculiar. Para ele, a ciência não é mais um setor da iniciativa cognitiva, e sim, de cientificismo. Adotar essa instância não é celebrar a ciência, e sim, distorcê-la" - Nicholas Rescher, in "The Limits of Science"
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23_04
REENCARNAÇÃO NA GRÉCIA ANTIGA
ORFISMO

Orfismo (grego antigo: Ὀρφικά) é um conjunto de crenças e práticas religiosas[1] originárias do mundo grego helenista bem como pelos trácios,[2] associada com a literatura atribuída ao poeta mítico Orfeu, que desceu ao submundo grego e voltou. Os órficos reverenciavam Dioniso (que uma vez desceu ao Mundo Inferior e voltou) e Perséfone (que anualmente descia ao Mundo Inferior por uma temporada e depois retornava, personificando a primavera). O orfismo tem sido descrito como uma reforma da anterior religião dionisíaca, envolvendo uma reinterpretação ou releitura do mito de Dionísio e um reordenamento da Teogonia de Hesíodo, baseado em parte na filosofia pré-socrática.[3]
O foco central do orfismo é o sofrimento e a morte do deus Dioniso nas mãos dos Titãs, o que constitui a base do mito central do orfismo. De acordo com esse mito, o infante Dioniso é morto, dilacerado e consumido pelos Titãs. Em retribuição, Zeus atinge os Titãs com um raio, transformando-os em cinzas. Destas cinzas nasce a humanidade. Na crença órfica, esse mito descreve a humanidade como tendo uma natureza dual: corpo (sōma), herdado dos Titãs, e uma centelha divina ou alma (psychē), herdada de Dioniso.[4] Para alcançar a salvação da existência material, titânica, era preciso ser iniciado nos mistérios dionisíacos e passar por teletē, um ritual de purificação e revivência do sofrimento e morte do deus.[5] Os órficos acreditavam que, após a morte, passariam a eternidade ao lado de Orfeu e outros heróis. Os não iniciados (amyetri), eles acreditavam, seriam reencarnados indefinidamente.[6] A fim de manter sua pureza após a iniciação e o ritual, os órficos tentavam viver uma vida ascética livre de contaminação espiritual, principalmente aderindo a uma dieta vegetariana estrita que também excluía certos tipos de feijão.[7]

Poesia contendo crenças distintamente órficas foram rastreadas até o século VI a.C.[9] ou pelo menos até o século V a.C., e escritas do século V a.C. aparentemente se referem a "Órficos".[10] Fontes clássicas, como Platão, referem-se a "iniciadores em Orfeu" (Ὀρφεοτελεσταί), e ritos associados, embora o quanto a literatura "órfica", em geral está relacionada a esses ritos ainda não é certo.[11]
Origem
Não está claro, em especial, a relação do orfismo a fenômenos relacionados dentro da religião grega, como pitagorismo, os mistérios de Elêusis,[12] várias manifestações de culto a Dionísio e a filosofia religiosa do pré-socrático Empédocles. No século V a.C. Heródoto relatou a proibição do sepultamento do morto vestindo roupas de lã, uma disposição funeral que chamou de órfica.[13]
Peculiaridades
O orfismo diferia da religião grega popular das seguintes maneiras:[14]
- caracterizava as almas humanas como divinas e imortais, mas condenadas a viver (por um período) em um círculo penoso de sucessivas encarnações através da metempsicose ou transmigração de almas;
- prescrevia uma forma ascética de vida, ou vida órfica, a qual, junto com ritos iniciáticos secretos, deveria garantir não apenas o desprendimento do tal círculo penoso mas também uma comunhão com deus(es);
- advertia sobre uma punição pós-morte por certas transgressões cometidas durante a vida;
- era fundamentada sobre escritos sagrados com relação à origem dos deuses e seres humanos.
Evidências
As visões e práticas órficas foram testemunhadas por Heródoto, Eurípides e Platão. A maioria das fontes de ensinamentos e práticas órficas é atrasada e ambígua, e alguns estudiosos afirmam que o orfismo tenha sido na verdade uma construção de uma data mais recente do que se acredita. Porém, os papiros Derveni, descobertos há poucos anos, permitem datar a mitologia órfica em quatro séculos a.C. ou até uma data mais antiga que essa. Outras inscrições encontradas testemunham a antiga existência de um movimento com as mesmas crenças centrais que foi mais tarde associado com o nome do orfismo.
Mitologia
As teogonias órficas são trabalhos genealógicos como a Teogonia de Hesíodo, mas os detalhes são diferentes. O relato principal é: Dioniso (na sua encarnação de Zagreu) é o filho de Zeus e Perséfone; Zeus nomeia a criança como sua sucessora, o que irrita sua esposa Hera. Ela instiga os Titãs a assassinarem a criança. Zagreu é então enganado com um espelho e brinquedos infantis pelos Titãs, que o despedaçam, fervem e o consomem. Zeus lançou um raio nestes e Hermes salvou o coração de Zagreu. As cinzas resultantes geraram a humanidade pecaminosa, composta dos corpos dos Titãs e de Dionísio. A alma do homem (fator dionisíaco) é portanto divina, enquanto o corpo (fator titânico) aprisiona a alma. Declarava-se que a alma retornaria repetidamente à vida, atada à roda do renascimento. Após a punição, as partes desmembradas de Zagreu foram cuidadosamente recolhidos por Apolo, que os enterrou em sua terra sagrada Delfos. Nos séculos posteriores, estas versões foram submetidas a um desenvolvimento em que o ato de enterrar de Apolo tornou-se responsável pela reencarnação de Dionísio, dando assim a Apolo o título Dionysiodotes (concededor de Dionísio).[15] Apolo desempenha um papel importante no mito do desmembramento porque ele representa a reversão da Alma Encósmica de volta à unificação.[16][17]
Existem duas histórias órficas do renascimento de Dionísio: em uma, é o coração de Dionísio que é implantado na coxa de Zeus; na outra, Zeus engravidou a mortal Sêmele, resultando no renascimento literal de Dioniso. Muitos desses detalhes diferem dos relatos dos autores clássicos. Damáscio diz que Apollo "reúne-o (Dioniso) junto e o traz de volta". Fírmico Materno, um autor cristão, faz um relato diferente com o livro Sobre o erro das religiões profanas. Ele diz que Júpiter (Zeus) era originalmente um rei (mortal) de Creta—um conceito de evemerismo—e Dioniso era seu filho. Dioniso foi assassinado e depois canibalizado. Apenas seu coração foi resgatado por Atena. Uma estátua de gesso (a mesma substância que os Titãs usavam para se disfarçar) foi então feita para se parecer com Dioniso, e o coração colocado dentro dela.[18]
As teogonias órficas incluem:[17][19]
- A "Teogonia Protogonos", perdida, composta cerca de 500 a.C., que presumidamente só é conhecida através de comentários encontrados em papiros como o de Derveni e em referências nos autores clássicos, como Empédocles e Píndaro.
- A "Teogonia Eudemiana", também perdida, foi composta no século V a.C., e teria sido o produto de um culto sincrético Baco-Curético.
- A "Teogonia Rapsódica", também perdida, composta na idade helenística, incorporava os trabalhos anteriores, e ficou conhecida através de sumários nos escritos de autores neoplatônicos.
- A "Teogonia Hieronimiana", atribuída a Jerônimo de Rodes e Helânico em relatos de Damáscio e Atenágoras, posterior às anteriores e produzida na era helenística, relatando que Chronos faz parte da tríade primordial junto com água e lama como princípios, no lugar da Noite, e que ele produz Fanes do Ovo Cósmico.
- Os Hinos Órficos, 87 poemas hexamétricos de extensão mais curta, foram compostos no final da era helenística ou início da era imperial romana.
Vida após a morte

As fontes epigráficas demonstram que a mitologia órfica sobre a morte e ressurreição de Dionísio estava associada a crenças em uma vida pós-morte abençoada. Tábuas de ossos encontradas em Ólbia Pôntica (século V a.C.) traziam inscrições curtas e enigmáticas do tipo: Vida. Morte. Vida. Verdade. Dio(niso). Órficos. A função dessas tábuas é desconhecida.[21]
Tabuletas de folha de ouro encontradas em túmulos de Túrio, Hipônio, Tessália e Creta (século IV a.C.) davam instruções ao morto. Embora essas tabuletas finas sejam frequentemente muito fragmentárias, coletivamente elas apresentam um cenário compartilhado da passagem para a vida após a morte. Quando ele chegasse ao Hades, deveria tomar cuidado para não beber do Rio Letes (Esquecimento), mas do poço de Mnemósine ("Memória"). São-lhe fornecidas nas lâminas expressões formulaicas com as quais se apresentará aos guardiães da vida após a morte, aos quais deveria dizer: Eu sou o filho da Terra e do Céu Estrelado. Estou com sede, dê-me algo para beber da fonte de Mnemósina.[22] Outras folhas douradas diziam: "Agora você está morto, e agora você renasce neste mesmo dia, três vezes abençoado. Diga a Perséfone que o próprio Báquico redimiu você."[23]
Pitagorismo
As visões e práticas órficas têm elementos paralelos com o pitagorismo. Há, porém, muito pouca evidência para determinar a extensão de qual movimento que influenciou o outro.
Os papiros Derveni
Os papiros Derveni compõem um pergaminho antigo grego que foi encontrado em 1962. É um tratado filosófico que é um comentário alegórico em um poema órfico, uma teogonia que diz respeito ao nascimento dos deuses, produzido no círculo do filósofo Anaxágoras, na segunda metade do século V Antes da Era Comum, tornando-o, segundo Ricahrd Janko, "a mais importante nova peça de evidência sobre a filosofia e religião gregas a vir à tona desde a Renascença".[24] Ele data de cerca de 340 A.E.C., durante o reinado de Filipe II da Macedônia, sendo o mais antigo manuscrito sobrevivente da Europa. Ele foi finalmente publicado em 2006.
Referências
- ↑ "Embora existiam poemas atribuídos a Orfeu circulando no século V e comunidades de adoradores desses poemas, não existia uma religião coerente chamada 'Orfismo'."Marilyn B. Skinner (8 de julho de 2013). Sexuality in Greek and Roman Culture. [S.l.]: John Wiley & Sons. p. 164. ISBN 978-1-118-61081-7
- ↑ Sigfried Jan De Laet; Joachim Herrmann. History of Humanity: From the seventh century BC to the seventh century AD. Volume III. [S.l.]: UNESCO. pp. 182–183. ISBN 978-92-3-102812-0
- ↑ A. Henrichs, “‘Hieroi Logoi’ ” and ‘Hierai Bibloi’: The (Un) Written Margins of the Sacred in Ancient Greece,” Harvard Studies in Classical Philology 101 (2003): 213-216.
- ↑ Sandys, John, Pindar. The Odes of Pindar including the Principal Fragments. Cambridge, MA: Harvard University Press; London, William Heinemann Ltd, 1937.
- ↑ Ana Isabel Jiménez San Cristóbal, Rituales órficos (Madrid: Universidad Complutense de Madrid, 2006);
- ↑ Proclus, Commentary on the Republic of Plato, II, 338, 17 Kern 224.
- ↑ Osek, Ewa (2015). The Orphic Diet. Littera Antiqua 10-11.
- ↑ «Attributed to the Painter of London E 497: Bell-krater (24.97.30) – Heilbrunn Timeline of Art History». The Metropolitan Museum of Art
- ↑ Backgrounds of Early Christianity by Everett Ferguson,2003,page 162,"Orphism began in the sixth century B.C"
- ↑ W. K. C. Guthrie, The Greeks & Their Gods (Beacon, 1954), p. 322; Kirk, Raven, & Schofield, The Presocratic Philosophers (Cambridge, 1983, 2nd edition), pp. 21, 30-31, 33; Parker, "Early Orphism", pp. 485, 497
- ↑ Parker, "Early Orphism", pp. 484, 487.
- ↑ Siehe dazu Fritz Graf: Eleusis und die orphische Dichtung Athens in vorhellenistischer Zeit, Berlin 1974, S. 1–8.
- ↑ Heródoto 2.81.
- ↑ Bertrand Russell, História da filosofia ocidental. Primeiro livro pp 20-2
- ↑ Alberto Bernabé, Miguel Herrero de Jáuregui, Ana Isabel Jiménez San Cristóbal, Raquel Martín Hernández. (2013), Redefining Dionysos
- ↑ Proclus in commentary on Cratylus states that Apollo signifies the cause of unity and that which reassembles many into one
- ↑ Ir para:a b Meisner, Dwayne A. (2018). Orphic Tradition and the Birth of the Gods (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press
- ↑ Firmicus Maternus, De errore profanarum religionum 6.4
- ↑ Locke, Liz (1997). Orpheus and Orphism: Cosmology and Sacrifice at the Boundary. Folklore Forum 28 (2).
- ↑ British Museum Collection
- ↑ Sider, David; Obbink, Dirk (30 de outubro de 2013). Doctrine and Doxography. [S.l.: s.n.] ISBN 9783110331370
- ↑ Numerosas tabuletas contêm esta fórmula essencial com pequenas variações; para os textos gregos e traduções, ver Fritz Graf and Sarah Iles Johnston, Ritual Texts for the Afterlife: Orpheus and the Bacchic Gold Tablets (Routledge, 2007), pp. 4–5 (Hipônio, 400 a.C.), 6–7 (Petelia, século IV a.C.), pp. 16–17 (Entela, possivelmente século III a.C.), pp. 20–25 (cinco tabuletas de Eleuterna, Creta, século II ou I a.C., pp. 26–27 (Milopótamos, século II a.C.), pp. 28–29 (Retimno, século II ou I a.C.), pp. 34–35 (Farsalos, Tessália, 350–300 BC), e pp. 40–41 (Tessália, metade do século IV a.C.) online.
- ↑ Tabuleta de Pelinna, século IV a.C. tardio, in Graf and Johnston, Ritual Texts for the Afterlife, pp. 36–37.
- ↑ «The Derveni Papyrus. Cosmology, Theology and Interpretation – Bryn Mawr Classical Review» (em inglês). Consultado em 8 de agosto de 2020
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FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Principais Filósofos da Religião
. Nicholas Wolterstorff (Harvard e Yale)
Epistemologia
De acordo com o prestigioso Cambridge Dictionary of Philosophy, a epistemologia religiosa é "um ramo da filosofia que investiga o status epistêmico de atitudes proposicionais sobre reivindicações religiosas" (Audi 2015: 925). Praticamente todas as metodologias existentes e atuais em epistemologia foram empregadas na avaliação de reivindicações religiosas. Alguns desses métodos foram mais racionalistas no sentido de envolverem o raciocínio a partir de verdades ostensivamente evidentes (por exemplo, um princípio de razão suficiente), enquanto outros foram mais experienciais (por exemplo, empirismo, fenomenologia, ênfase na paixão e subjetividade, o estresse na prática como encontrado no pragmatismo).
Swinburne foi (e é) o principal defensor da teologia natural teísta desde o início dos anos 1970. Swinburne aplicou suas consideráveis habilidades analíticas ao defender a coerência e a força do teísmo, e a análise e defesa de ensinamentos cristãos específicos sobre a trindade, encarnação, ressurreição de Cristo, revelação e muito mais. Os projetos de Swinburne na tradição evidencialista na filosofia da religião estão na grande tradição da filosofia britânica da religião dos platonistas de Cambridge no século XVII, por Joseph Butler (1692-1752) e William Paley (1743–1805) aos filósofos britânicos do século XX, como como AE Taylor (1869–1945), FR Tennant (1866–1957), William Temple (1881–1944), HD Lewis (1910–1992) e AC Ewing (1899–1973). O argumento filosófico positivo do teísmo foi encontrado pelo trabalho de muitos filósofos poderosos, mais recentemente Ronald Hepburn (1927–2008), JL Mackie (1917–1981), Antony Flew (1923–2010), Richard Gale (1932–2015), William Rowe (1931–2015), Michael Martin (1932–2015), Graham Oppy (1960–), JL Schellenberg (1959–) e Paul Draper (1957–). (VerThe Routledge Companion to Theism [Taliaferro, Harrison, & Goetz 2012] para uma visão geral de tal trabalho.)
Houve pelo menos dois desenvolvimentos recentes interessantes na filosofia da religião no quadro do evidencialismo. Um foi apresentado por John Schellenberg, que argumenta que, se o Deus do cristianismo existe, a realidade de Deus seria muito mais evidente do que é. Indiscutivelmente, no entendimento cristão dos valores, um relacionamento evidente com Deus faz parte do bem humano mais elevado, e se Deus estivesse amando, Deus traria esse bem. Como há evidências de que Deus não se torna disponível para os que buscam sinceramente esse relacionamento, isso é evidência de que esse Deus não existe. De acordo com essa linha de raciocínio, a ausência de evidência do Deus do cristianismo é evidência de ausência (ver Schellenberg 2007 e Howard-Snyder & Moser 2001). O argumento se aplica além dos valores e teísmo cristãos, e a qualquer conceito de Deus em que Deus seja poderoso e bom, e que um relacionamento com um Deus tão bom seja satisfatório e bom para as criaturas. Não funcionaria com um conceito de Deus (como encontramos, por exemplo, no trabalho de Aristóteles), no qual Deus não está envolvido amorosamente e providencialmente no mundo. Essa linha de raciocínio é freqüentemente referida em termos da ocultação de Deus.
Evidencialismo é a visão de que, para uma pessoa ser justificada em alguma crença, essa pessoa deve ter alguma consciência da evidência da crença. Isso geralmente é articulado como a crença de uma pessoa sendo justificada, dada a evidência total disponível para a pessoa. Nesta visão, a crença em questão não deve ser minada (ou derrotada) por outras crenças evidentes mantidas pela pessoa. Além disso, os evidencialistas costumam afirmar que o grau de confiança em uma crença deve ser proporcional à evidência. O evidencialismo foi defendido por representantes de todos os diferentes pontos de vista da filosofia da religião: teísmo, ateísmo, defensores de modelos não-teístas de Deus, agnósticos.
O evidencialismo foi desafiado por muitos motivos. Alguns argumentam que é muito rigoroso; temos muitas crenças evidentes de que estaríamos perdidos para justificar com sucesso. Em vez de evidencialismo, alguns filósofos adotam uma forma de confiabilismo, segundo a qual uma pessoa pode ser justificada em uma crença desde que a crença seja produzida por meios confiáveis, independentemente de a pessoa estar ciente ou não de evidências que justifiquem a crença. Dois movimentos na filosofia da religião desenvolvem posições que não estão alinhadas com a tradição evidencial tradicional: epistemologia reformada e epistemologia volitiva.
A epistemologia reformada foi defendida por Alvin Plantinga (1932–) e Nicholas Wolterstorff (1932–), entre outros. A epistemologia reformada é "reformada" na medida em que se baseia no reformador João Calvino (1509-1564), que alegou que as pessoas são criadas com um senso de Deus ( sensus divinitatis). Embora esse senso de Deus possa não ser aparente devido ao pecado, ele pode levar as pessoas a acreditarem em Deus de maneira confiável e a sustentar uma vida de fé cristã. Embora esse estímulo possa desempenhar um papel evidencial em termos da experiência ou percepção ostensiva de Deus, também pode justificar a crença cristã na ausência de evidências ou argumentos (ver K. Clark & VanArragon 2011; M. Bergmann 2017; e Plantinga & Bergmann 2016). Na linguagem introduzida por Plantinga, a crença em Deus pode ser tão adequadamente básica quanto nossas crenças comuns sobre outras pessoas e o mundo. A estrutura da epistemologia reformada é condicional à medida que avança a tese de que se existe um Deus e se Deus realmente nos criou com um sensus divinitatisque confiavelmente nos leva a acreditar (verdadeiramente) que Deus existe, então tal crença é justificada. Há um sentido em que a epistemologia reformada é mais uma estratégia defensiva (oferecendo motivos para pensar que a crença religiosa, se verdadeira, é justificada), em vez de fornecer uma razão positiva pela qual as pessoas que não têm (ou acreditam ter) um sensus divinitatis deve abraçar a fé cristã. Plantinga argumentou que pelo menos uma alternativa à fé cristã, o naturalismo secular, é profundamente problemática, se não auto-refutável, mas essa posição (se convincente) avançou mais como uma razão para não ser naturalista do que como uma razão de ser. um teísta. (Para uma versão mais forte do argumento de que o teísmo explica melhor a normatividade da razão do que as alternativas, veja Agents Under Fire de Angus Menuge, 2004.).
A epistemologia reformada não é um fideísmo ipso facto. O fideísmo apoia explicitamente a legitimidade da fé sem o apoio, não apenas de evidências (proposicionais), mas também da razão (MacSwain 2013). Por outro lado, a epistemologia reformada oferece uma explicação metafísica e epistemológica da garantia segundo a qual a crença em Deus pode ser garantida, mesmo que não seja apoiada por evidências, e oferece uma descrição da crença adequadamente básica, segundo a qual a crença básica em Deus é epistêmica. a par de nossas crenças básicas comuns sobre o mundo e outras mentes que parecem ser paradigmaticamente racionais. No entanto, embora a epistemologia reformada não seja necessariamente fideísta, ela compartilha com o fideísmo a idéia de que uma pessoa pode ter uma crença religiosa justificada na ausência de evidências.
Créditos: https://plato.stanford.edu/entries/philosophy-religion/#ReliEpis
Métodos
Para o estudo da filosofia da religião são usados os métodos histórico-crítico comparativo, o filológico e o antropológico. O primeiro deles compara as várias religiões no tempo e no espaço, em busca de seus aspectos mais comuns e suas diferenças, para verificar o que constitui a essência do fenômeno religioso. O segundo faz o estudo comparativo das línguas, visando encontrar as palavras utilizadas para descrever e expressar o sagrado e suas raízes comuns. O terceiro método procura reconstruir o passado religioso tendo por base a etnologia (estudo dos povos primitivos e atuais, suas instituições, crenças, rituais e tradições).A filosofia da religião deve fazer uma adequada conjugação desses métodos "para obter a melhor soma de elementos para chegar à conclusão mais correta sobre a essência da religião e suas características universais."
Histórico
Até o século XX, a história do pensamento filosófico ocidental encontrava-se intimamente associada às tentativas de esclarecer certos aspectos do paganismo, do judaísmo e do cristianismo, enquanto que em tradições como o hinduísmo, o budismo ou o taoismo, há uma distinção ainda menor entre a investigação filosófica e a religiosa.
O problema clássico de conceber um objeto apropriado para a crença religiosa consiste em compreender se é possível lhe atribuir algum termo: fará sentido dizer que esse objeto cria e conhece coisas, que deseja certos acontecimentos, que é bom ou providencial, que é uma ou muitas coisas?
Na teologia negativa afirma-se que Deus só pode ser conhecido quando negamos que os termos vulgares possam ser-lhe aplicados; outra sugestão influente é a de que os termos vulgares só se lhe aplicam metaforicamente, não existindo qualquer esperança de eliminar essas metáforas. Mas mesmo que se chegue a uma descrição do Ser Supremo, continuamos com o problema de encontrar um motivo para se supor que exista algo correspondente a essa descrição.
A época medieval foi a mais fértil em pretensas demonstrações da existência de Deus, como as cinco vias de Santo Tomás de Aquino, ou o argumento ontológico de Santo Anselmo. Essas provas deixaram de ter ampla aceitação desde o século XVIII, embora ainda convençam muitas pessoas e alguns filósofos.
De uma maneira geral, até os filósofos religiosos (ou talvez estes em especial) têm sido cautelosos em relação às manifestações populares da religião. Kant,[2] um simpatizante da fé religiosa, distinguiu várias perversões dessa fé: a teosofia[3] (uso de concepções transcendentais que confundem a razão), a demonologia (favorecimento de concepções antropomórficas do Ser Supremo), a teurgia (ilusão fanática de que esse ser pode nos comunicar sentimentos ou de que podemos exercer influência sobre Ele) e a idolatria ou a delusão supersticiosa de que podemos nos tornar aceitáveis perante o Ser Supremo através de outros meios que não o de ter a lei moral no coração (Crítica da faculdade do juízo, II.28).
No entanto, essas tendências para o contato arrebatado têm se tornado cada vez mais importantes na teologia moderna. Desde Feuerbach há uma tendência crescente na filosofia da religião em se concentrar nas dimensões sociais e antropológicas da crença religiosa (ver também jogo de linguagem, magia), ou para a conceber como uma manifestação de várias necessidades psicológicas explicáveis.
Outra reação consiste numa fuga para o elogio do comprometimento existencial puramente subjetivo (ver também existencialismo, Kierkegaard). No entanto, o argumento ontológico continua a atrair a atenção, e as tendências antifundacionalistas (ver fundacionalismo) da epistemologia moderna não são inteiramente hostis às pretensões cognitivas que se baseiam na experiência religiosa.
Leitura recomendada
- The London Philosophy Study Guide oferece muitas sugestões sobre o que ler, dependendo da familiaridade do estudante do assunto: Filosofia da Religião
- William L. Rowe, William J. Wainwright, Philosophy of Religion: Selected Readings, Third Ed. (Florida: Harcourt Brace & Company, 1998)
- Religious Studies é um jornal internacional de filosofia da religião. É acessível online e em formato impresso; possui arquivos online a partir da edição n.º 1 de 1965. São publicadas quatro edições por ano.




